“Veio morar entre nós”: A conversão quaresmal diante do clamor por moradia digna – CF 2026
Falar da CF 2026 – Fraternidade e Moradia – inicialmente pode parecer “chover no molhado”, pois já trabalhamos outras campanhas que abordaram, de alguma forma, essa temática. Porém, de maneira forte e direta, é a primeira vez que a questão da moradia é assumida como centro da reflexão quaresmal.
O lema da campanha nos recorda: “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1,14)
E ainda: “Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2,7)
Esses textos da iluminação bíblica nos levam a refletir sobre a experiência vivida por Jesus de Nazaré, Filho de Deus, Filho de Maria e José, nosso irmão. Ele conhece, desde o nascimento, a realidade da falta de lugar, da ausência de moradia digna.
Como Ele mesmo afirma: “As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” (Lc 9,58)
Teto não é apenas proteção contra o sol, o calor ou a chuva. É lugar de descanso após o trabalho, de cuidado na doença, de encontro, de aconchego. Como é bom poder dizer: “Vou voltar para minha casa.”
Jesus veio morar no nosso meio, amar do nosso jeito, abraçar, fazer-se um de nós. Amar com coração humano. Nasceu sem teto, no meio dos animais, porque não havia lugar para Ele. Durante a vida pública, viveu sem moradia fixa. Nasce sem teto, vive sem teto e morre fora da cidade, na cruz.
O nº 111 do Texto-Base da CF 2026 afirma:
“Assim, na Bíblia, o direito à moradia incluía também a garantia de viver com dignidade, no espaço onde era possível estabelecer vínculos, relações e sobreviver economicamente por meio do trabalho.”
Um direito que, ainda hoje, é frequentemente negado.
O objetivo geral da campanha é promover, a partir da Boa-Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como propriedade e direito, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda a população.
Um dos objetivos específicos da CF 2026 diz: “Conscientizar, a partir da Palavra de Deus e do Ensino Social da Igreja, sobre a ‘necessidade sagrada’ de teto, terra e trabalho para todos.”
Ou seja, somos chamados a tomar consciência de nossa responsabilidade, não apenas como cidadãos, mas como mulheres e homens consagrados a serviço do Reino, aqui e agora. Em Mt 25,31-46, Jesus nos apresenta uma proposta concreta de vivência comprometida do Batismo: “Eu estava com fome… era estrangeiro… estava nu…”.
Em uma fala do Pe. Jean Poul, no programa “Despertar com Justiça e Paz”, ele nos provoca: voltamos para casa depois de um dia de trabalho e nem sempre nos damos conta da realidade das pessoas em situação de rua por onde passamos. Milhões de famílias vivem sem moradia digna. A questão da moradia inadequada foi tão naturalizada que, muitas vezes, já não nos sensibiliza. E surgem os questionamentos: por que tanta desigualdade? Como, em 2026, ainda há tantos barracos de papelão, madeira velha e lonas rasgadas sendo chamados de moradia?
Falar da CF 2026 é fácil. Difícil é perceber que, num país tão rico e tão grande como o nosso, ainda haja milhões de pessoas sem moradia digna de um ser humano, filha e filho de Deus.
Nós, Religiosas da Assunção, chegamos ao Sol Nascente em junho de 2025. Estamos no Trecho 3, o maior dos trechos. Em julho, houve o despejo e a derrubada de cerca de 70 casas. A polícia chegou com a tropa de choque, tratores e ordem de demolição, sem negociação. Houve balas de borracha, gás lacrimogêneo e muita agressividade. Fizemos duas manifestações com pessoas do bairro e alguns movimentos sociais de apoio. Junto às mulheres do Coletivo Mulheres do Sol, onde acontecem várias atividades com as Irmãs, levantamos nossa voz.
No dia 17 de fevereiro, estivemos lá novamente: tudo no chão. E fica a pergunta: para onde foram aquelas pessoas? Durante o Seminário da CF 2026, dois momentos me marcaram profundamente. Um deles foi a apresentação do cartaz: a imagem de Jesus deitado em um banco de praça, com os pés à mostra e o rosto coberto. Lembrei-me do indígena Galdino, queimado enquanto dormia em um banco de praça em Brasília. O outro momento foi a visita aos moradores de rua no Setor Comercial Sul. Passamos a tarde com eles, onde eles estão; rezamos e partilhamos a mesma mesa e a mesma comida.
Essa experiência não termina aqui. Que a Quaresma seja, para nós, tempo verdadeiro de conversão.
Ir. Geralda do Carno Parreira – Religiosas da Assunção




