Sopro Dinâmico do Espírito
O tema deste mês: Pentecostes – chama viva que nos envia em missão, é uma realidade que impregna toda a dinâmica da Revelação e nos encanta com a sutileza deste Mistério.
O Amor eterno do Pai e do Filho, desde o princípio, se revelou num “Sopro” que deu vida a toda a Criação e, de forma privilegiada, na alma do ser humano exalou seu “Sopro de Vida” e o fez à sua “imagem e semelhança”. (Gn 1,9). Com este Sopro de Vida Deus desposou a humanidade numa Aliança eterna de amor reciproco. O Espírito Santo se tornou uma chama viva impulsionando para a glória de Deus e a felicidade do ser humano. “O Espírito é que vivifica, a carne nada alcança. As palavras que eu vos disse são espírito e vida.” (Jo 6,63).
Desde Abrão, até nossos dias, esta chama de amor, manifesta-se de infinitas formas: “O anjo do SENHOR lhe apareceu em uma chama de fogo, do meio de uma sarça”. (Ex 3,2); “E o SENHOR ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite.” (Ex 13,21); “Porque o SENHOR, teu Deus é fogo devorador, é um Deus ciumento” (Dt 4,24); “Dito do SENHOR, cujo fogo está em Sião, cuja fornalha está em Jerusalém (Is 31,9); “Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o SENHOR,..?” (Jr 23,29); “E quando a chama subia do altar para o céu, o anjo do SENHOR subiu com a chama do altar” (Jz 13,20). Assim, no AT, o Espirito como vento, sopro, e como chama perpassa toda a dinâmica da Revelação até transformar o seio de uma mulher em fornalha incandescente capaz de gerar o Verbo Encarnado. “O Espírito Santo descerá sobre ti, o poder do Altíssimo te cobrirá; por isso, aquele que nascer será santo; será chamado Filho de Deus.” (Lc 1, 35). E o Filho veio morar conosco:
“Quão manso e amoroso despertas em meio seio onde tu só secretamente moras; nesse aspirar gostoso, de bens e glória cheios, quão delicadamente me enamoras!” (São João da Cruz – Canção IV).
Jesus Cristo revelou o amor do Pai através de sua vida, obras e encontros. Sua Encarnação e vida compartilhada com os humanos nos permitem ver e tocar a divindade de uma maneira tangível, pois nos revelou a plenitude do Amor e nos preparou para o dinamismo do Espírito Santo.
A samaritana esqueceu a água e cântaro pela força e doçura das palavras de Jesus (Jo, 4-28) e transformou-se em chama de amor a anunciar a revelação que o Senhor lhe fizera. Os discípulos de Emaús (Lc 24,35) foram tocados por este sopro que fez arder o coração e cheios de alegria voltaram para a comunidade que havia experienciado a Ressurreição de Jesus e aguardavam a vinda do Espírito prometido. Da experiência do Ressuscitado, reascendendo a chama nos corações, nasceu a sinodalidade, ou seja, a missão da Igreja, comunidade de fé, onde todo o cristão é chamado a comunhão e participação, manifestando a união com Cristo e o engajamento ativo na comunidade.
A vida religiosa é consagrada para ser a guardiã desta chama viva, onde o amor nunca é ocioso, onde o Sopro do Espirito, em continuo movimento, levanta chamas e espalha fagulhas transformando-as em múltiplos gestos de solidariedade, compaixão, justiça, fraternidade, etc. É sempre o Espírito Santo que produz o movimento e a ação para fora, em prol do outro, construindo o Reino de Deus, a “civilização do amor”, expressão inaugurada pelo Papa São Paulo VI. Esta é a nossa missão atual, construir uma civilização onde o Espírito é o protagonista, que sopra de forma tão inusitada, que nos mantêm despertos, sempre vigilantes e em profunda comunhão para perceber seus sinais e contribuir na realização do Projeto de Deus para a humanidade.
É preciso que o sopro do Espírito mantenha viva a chama no profundo de nosso ser, para que o amor vá às pressas ao encontro do outro; deixe o cântaro e vá aos seus para anunciar a Boa-nova; levante de madrugada para encontrar aquele que foi crucificado, morto, sepultado nas mais diferentes formas da sociedade atual.
Irmãs, irmãos, assopremos a brasa, unamo-nos neste sopro e deixemos o Espírito nos desacomodar para que o Amor eterno de Deus nos conduza, a todos, pelo caminho da felicidade prometida.
Ir. Carmen Maria Pulga – religiosa das Irmãs Paulinas
Referências
BÍBLIA. A Bíblia. São Paulo: Paulinas
São João da Cruz. Chama viva de amor. Petrópolis: Editora Vozes.




